Uma paciente chegou na minha sala incomodada com uma pergunta que fizeram a ela: “você se considera promíscua?” O incômodo vinha de uma sensação constante de julgamento da mulher, afinal, na esfera pública, o termo “promiscuidade” continua sendo utilizado como diagnóstico moral.
Raramente técnico, quase sempre atravessado por julgamentos subjetivos, ele é frequentemente direcionado às mulheres, sobretudo àquelas que ousam transitar fora da lógica relacional monogâmica ou heteronormativa. Essa rotulação, longe de ser neutra, revela séculos de repressão sexual feminina e de controle político sobre os corpos.
A construção histórica da “mulher promíscua”
A ideia de que a mulher deve ser sexualmente contida, monogâmica e recatada não nasce do acaso. É resultado de um processo histórico de organização patriarcal da sociedade. Como apontam Michel Foucault (História da Sexualidade, 1976) e Silvia Federici (O Calibã e a Bruxa, 2004), a sexualidade feminina foi progressivamente enclausurada por mecanismos de poder que associaram prazer a culpa e desejo a desvio.
Durante o século XIX e boa parte do século XX, a medicina e a psicologia consolidaram discursos que patologizavam qualquer comportamento sexual feminino que escapasse da norma matrimonial e reprodutiva. Termos como ninfomania, histeria e, mais tarde, promiscuidade sexual passaram a ser usados como forma de controle simbólico e institucional.
A promiscuidade, nesse contexto, nunca foi apenas um comportamento observado, mas uma infração simbólica: a transgressão do papel social esperado da mulher. Não à toa, o mesmo comportamento — múltiplos parceiros, desejo sexual ativo, não exclusividade — é lido de forma diametralmente oposta quando se trata de homens. (Já percebeu que raramente se ouve a palavra no masculino “promíscuo”?)
Promiscuidade ou autonomia sexual?
Autores contemporâneos como Regina Navarro Lins (O Livro do Amor, 2000) e Esther Perel (Sexo no Cativeiro, 2006) têm contribuído para ressignificar a sexualidade como uma expressão legítima do desejo humano, livre das amarras da moral religiosa ou patriarcal. Em suas análises, fica evidente que muitos comportamentos considerados “promíscuos” são, na verdade, expressões de autonomia sexual e relacional.
Na perspectiva da sexologia moderna, promiscuidade não é um diagnóstico clínico, mas sim um juízo social. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), por exemplo, não define a quantidade de parceiros sexuais como critério para qualquer transtorno — a não ser quando há prejuízo significativo e sofrimento subjetivo, o que não se aplica a pessoas que vivem sua sexualidade de forma responsável, consensual e segura.
É importante lembrar que a chamada “hipersexualidade”, quando presente, pode estar ligada a contextos muito distintos — desde impulsividade até tentativas de compensação emocional. Porém, mesmo nesses casos, deve ser avaliada com cuidado e sem confundir comportamento sexual ativo com patologia.
O efeito da repressão: quando o problema não é o desejo, mas a culpa
Paradoxalmente, o que a sociedade chama de promiscuidade muitas vezes nasce da própria repressão. Mulheres que foram impedidas de se conhecer sexualmente, que não tiveram acesso à educação sexual de qualidade, ou que foram punidas por expressarem desejo, acabam internalizando culpa, vergonha e confusão em relação ao próprio corpo.
Como aponta Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo, 1949), “não se nasce mulher, torna-se mulher” — e nesse tornar-se está embutido o processo de submissão às normas de gênero e sexualidade. O excesso, o impulso ou a desorganização sexual em algumas trajetórias não são frutos de liberdade excessiva, mas da ausência de espaços seguros para desenvolver uma sexualidade saudável.
Promiscuidade como sintoma social
É preciso, portanto, deslocar a pergunta. Quando alguém questiona se uma mulher é “promíscua”, a pergunta mais honesta seria: o que estamos chamando de promiscuidade e por quê?
Se é pela frequência dos encontros, pela diversidade de parceiros, ou pelo desejo não-monogâmico, o que está sendo avaliado não é um comportamento disfuncional, mas um comportamento fora da norma. E normas, sabemos, não são neutras.
Como sexóloga especialista em conexões e liberdade afetiva, prefiro avaliar a qualidade das escolhas, o grau de consentimento, o nível de consciência e os impactos emocionais — e não o número de experiências ou a forma como alguém vive sua sexualidade. O que nos adoece não é o desejo, mas a culpa imposta sobre ele.





