não monogamia é genética, está no dna.
Relacionamento

Não Monogamia no DNA

No livro Polysecure, Jessica Fern, psicóloga que atende pessoas não monogâmicas consensuais, explica que um dos fatores pelos quais as pessoas entram em relacionamentos NMC é a orientação para não monogamia. Eu chamo de orientação relacional, pois assim como os indivíduos são orientados sexualmente para um ou outro gênero (heterossexual, homossexual, bissexual, etc.) está cada vez mais claro que há, também, uma orientação para um ou outro tipo de relacionamento (monogamia, relacionamento aberto, etc).

A recente abertura social para discussão – e aceitação – da existência de outros formatos relacionais além da monogamia tem sido essencial para tirar da marginalidade este e outros temas relacionados à sexualidade. Falar sobre relações sexuais sem compromisso, extraconjugais ou com mais de duas pessoas ao mesmo tempo já não é algo totalmente reprovável, ainda que encontre resistência de determinados grupos (geralmente ligados à religião ou política com traços extremistas).

Questão de Genética

É bem possível que muitas pessoas sintam que “não tem escolha”, ou uma espécie de “impulso incontrolável” quando se trata de variedade sexual. Diversos pacientes meus relatam sentir grande emoção, muita vontade e sensação agradável na conquista e consequente atividade sexual com pessoas que não são seus parceiros “oficiais”. Essa sensação pode ser explicada pela genética.

Há estudos que mostram relação entre o gene DRD4 e o comportamento de busca de sensações, incluindo migração e busca de novidades, com influencia na excitação fisiológica, no prazer e na recompensa intrínseca. Um estudo de 2009 traz os seguintes conceitos:

Promiscuidade = relação sexual sem compromisso

Infidelidade = qualquer atividade sexual física com um indivíduo diferente do parceiro atual de relacionamento comprometido autoidentificado (ou seja, “traição”)

Nós diferenciamos conceitualmente a monogamia sexual (genética) da monogamia social (vínculo de casal) e, como tal, reconhecemos que a infidelidade é uma instância particular de sexo sem compromisso, onde um indivíduo está tradicionalmente comprometido, porém, não com um parceiro com quem está se envolvendo em atividade sexual.

Garcia JR, MacKillop J, Aller EL, Merriwether AM, Wilson DS, Lum JK (2010) Associações entre a variação do gene do receptor D4 da dopamina com infidelidade e promiscuidade sexual. PLoS ONE 5(11): e14162. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0014162

Os pesquisadores descobriram que indivíduos com esta variação genética (DRD4 VNTR 7+) tinham uma tendência maior à infidelidade (qualquer atividade sexual com outra pessoa além do parceiro principal). A motivação parece vir da forma como o cérebro processa a dopamina, neurotransmissor ligado ao sistema de recompensas. É como se, durante a traição, eles recebessem uma descarga maior de prazer. Pessoas com esse gene podem se sentir felizes em um relacionamento sério, mas ao mesmo tempo podem ter uma vontade quase incontrolável de fazer sexo com outras pessoas.

Ou seja, a motivação para se envolver em experiências sexuais extra-relacionais (infidelidade) ou atividades sexuais promíscuas (casos de uma noite) pode permanecer desconectada de qualquer motivação para apego e comprometimento, mesmo na presença de fortes vínculos de casal existentes.

Mas não só genética

Apesar dessa descoberta é importante lembrar que os resultados comportamentais examinados são probabilísticos e de forma alguma determinísticos. Ou seja, essas descobertas sugerem taxas e instâncias mais altas dos comportamentos avaliados, mas não que todos os indivíduos que são 7R+ ou 7R- necessariamente exibirão os resultados comportamentais associados a cada genótipo. Afinal de contas, o ser humanos é único e também recebe influência do ambiente e da cultura à qual se encontra inserido.

Um outro estudo de 2014 da Universidade de Queensland mostra que o comportamento de variedade sexual em 63% dos homens e 40% das mulheres podem ser atribuídos à herança genética. O coordenador do estudo Brendan Zietsch explica que foram analisados mais de 7 mil pares de gêmeos na Finlândia, todos em relacionamentos estáveis.

“Nossa pesquisa mostra que a genética influencia a possibilidade de pessoas fazerem sexo com parceiros fora de seu relacionamento”.

Brendan Zietsch

Seria interessante analisar como a dopamina age no cérebro de indivíduos em relações NMC onde o sexo com outras pessoas é consensual. Haveria a mesma descarga dopaminérgica? Ou o consentimento configuraria normatização social da “infidelidade” fazendo com que os níveis de dopamina permaneçam estáveis? Sendo assim, pessoas NMC ainda procurariam trair seus parceiros em busca de mais dopamina para suprir os receptores genéticos? Não temos essas respostas ainda, quem sabe um dia…

Marina Rotty