Relacionamento

Isso Me Incomoda, Pare de Fazer

Você anda incomodado com o que sua parceria gosta de fazer? Aprenda a lidar com a situação e tenha um relacionamento mais leve.

É comum encontrar a seguinte situação em qualquer relacionamento: o parceiro A não gosta de alguma atitude do parceiro B, fala pra ele parar de fazer e espera, com toda a força, que ele realmente nunca mais faça. Eu fico me perguntando por quê as pessoas ainda tentam mudar as outras, para fazê-las se encaixar na sua própria versão de mundo perfeito.

Exemplo comum em relações monogâmicas: o marido gosta de jogar futebol, a esposa reclama que ele vai. Ela não joga, ela não vai torcer, ela não é dona da bola. Mas ainda assim fala pro marido que ela não gosta que ele jogue a bolinha e, de quebra, ainda diz que ele tinha mesmo que parar de jogar. Porquê o mundo perfeito da esposa, que é curtir o domingo em casa, tem que ser o mesmo do marido? Por que o mundo perfeito do marido, que é jogar bola, é pior ou melhor do que o da esposa?

Exemplo comum em relações NMC: a esposa tem vontade de se encontrar sozinha com alguém, o marido não deixa a não ser que ele vá junto, afinal de contas, ele não tem esse desejo de sair sozinho, porque a esposa tem que ter? Porque transar com outra pessoa sozinha é um absurdo enquanto fazer um menage é totalmente aceitável? Porque o desejo da esposa de sair sozinha, ou do marido de fazer menage, seria melhor ou pior do que o outro?

É claro que, em um relacionamento, existem ajustes, renúncias, e porque não, mudanças. Mas o problema dessa situação não é o ajuste voluntário e consentido, é a imposição. “Eu me incomodo quando você faz isso, pode não fazer mais?” parece muito educado de se dizer, porém esconde um grande problema. Quando você diz isso, você está impondo a sua visão de mundo perfeito ao seu parceiro, e isso está longe de ser amor.

E há casos em que essa exigência é bem explícita, contendo claras ameaças de término da relação, seja no tom de voz, na expressão facial ou dito claramento com palavras rudes. O resultado mais comum quando esse problema acontece é a falsa mudança, onde a pessoa pára de fazer o que incomoda só quando está perto do outro – bastante comum em relações monogâmicas onde não existe diálogo aberto.

Em relações NMC, o resultado pode ser diferente se as parcerias estiverem realmente abertas a dialogar. Porque eu digo isso: relações NMC tendem a manter comunicação mais aberta porque a sexualidade é mais aberta. Uma vez que os parceiros precisam falar sobre seus desejos sexuais, e mais ainda, realizá-los com o consentimento de todos os envolvidos, eles se tornam mais propensos a dialogar abertamente sobre outros assuntos menos polêmicos, como não gostar de uva passa no arroz.


A primeira pergunta certa a se fazer nesse caso é:

1 – Por quê ele faz o que faz? Ou gosta do que gosta, ou deseja o que deseja?

Se algum comportamento no seu parceiro te incomoda, pergunte por quê ele faz isso. É possível que ele não tenha essa resposta na hora, então você peça por favor para ele encontrar a resposta, para lhe ajudar a lidar com esse incômodo.

A segunda pergunta certa a se fazer é:

2 – Por quê eu me incomodo com o que ele faz? Ou o que ele gosta ou deseja?

Afinal de contas, é ele quem faz, gosta ou deseja, não você. Se o comportamento é dirigido a você, pense em como outras pessoas te trataram e veja se não traz lembranças ruins. Mas se o comportamento não tem nada a ver com você, por quê seu parceiro não pode fazer, ainda mais se for algo que ele se sinta feliz em fazer?

Percebam que são apenas duas perguntas mas com enorme complexidade em cada uma.


Quando as perguntas certas são feitas, a relação tende a evoluir. Os parceiros se aprofundam em reflexões acerca de si mesmos e se tornam mais capazes de traduzir seus sentimentos e comportamentos em palavras. De forma que um diálogo é construído, o conhecimento um do outro é ampliado e a relação se fortalece.

De qualquer forma, o ideal seria que os relacionamentos fossem baseados unicamente na vontade de estar um com o outro. No desejo de construir um futuro juntos, de se apoiarem mutuamente, de evoluírem como indivíduos, compartilhando a jornada da vida. Mas o que mais vejo são parcerias onde a base é a insegurança emocional, o controle do comportamento do outro e a competição ao invés da compersão.

Sentir felicidade na felicidade do parceiro, PRINCIPALMENTE quando você não faz parte dessa felicidade, é a maior prova de amor que uma pessoa pode dar à outra. E toda vez que penso nisso também penso o quanto estamos longe, como sociedade, desse patamar de relacionamento. Conheço algumas relações assim, por isso sei que não é utopia. É sim, bem possível, construir relações sem jogar as suas inseguranças nos ombros de quem você diz amar.