Com o Dia das Bruxas se aproximando – o Halloween, que cai no dia 31 de outubro, uma data repleta de mistérios, fantasias e celebrações do sobrenatural –, eu venho aqui refletir sobre a minha relação profunda com a “bruxaria”. Não falo de poções mágicas ou vassouras voadoras, mas de uma metáfora poderosa para a mulher que ousa ser sexualmente livre em um mundo patriarcal. Desde o momento em que me percebi como mulher, entendi que ser “bruxa” é uma necessidade de sobrevivência. Nesse mundão onde o lugar da mulher é pré-designado pela sociedade, pela família, pela religião e pelo Estado, ai daquela que questiona ou transgride! Ser bruxa, para mim, significa abraçar o poder feminino, incluindo a sexualidade sem amarras, e desafiar as normas que nos confinam.
Minha jornada começou cedo, na infância, quando eu já questionava o meu lugar imposto. Lembro-me de confrontar o pai, a Igreja e as expectativas sociais com perguntas incômodas. As respostas vinham sempre no tom de resignação: “Não tem nada que você possa fazer pra mudar” ou “Aceita que dói menos”. Ah, que piada! O patriarcado parece não entender que a mulher nasce familiarizada com a dor – do parto aos ciclos menstruais, da opressão diária às violências sutis. Quando ela se dá conta de que a dor é uma companheira constante, tanto faz se é “menos” ou “mais”; ela aprende a transformá-la em força. É aí que entra a bruxaria: não como feitiçaria literal, mas como rebelião interna, um elixir de empoderamento que nos faz questionar e agir.
Pense nos meus “poderes próprios”, como eu gosto de chamar. Quando criança, sonhava em ser juíza de futebol. A reação? Risadas e deboche: “Onde já se viu? Uma menininha bonitinha como você?”. Então, mudei para jogar futebol, e ouvi: “Tá louca? Meninas não fazem isso”. Não me conformei. Aprendi sozinha, assistindo jogos com meu pai, memorizando regras, expressões e jogadas. Na praia, em vez de tomar sol passivamente, pegava a bola e treinava embaixadinhas. Não era perfeita, mas fui lá e fiz, contra todas as vozes que diziam “impossível”. Essa determinação é bruxaria pura: conjurar o que nos negam.
Mais tarde, o sonho evoluiu para ser pianista em um quarteto oficial da minha religião. Eu tinha tudo: tocava piano, cantava, compunha, arranjava e possuía ouvido absoluto. Mas faltava um “detalhe”: eu não era homem. A ficha caiu: o patriarcado barrava meu caminho só por causa do gênero. Aos 17 anos, criei meu próprio quarteto, só de mulheres. Foi uma declaração de independência! Depois, ao me deparar com diferenças salariais gritantes entre homens e mulheres – inclusive na religião, onde o mesmo trabalho valia menos para nós –, entendi que espaços tradicionais nunca acolheriam uma mulher insubordinada como eu. Alguém que questiona dogmas, que não segue cegamente? Não, obrigada. Para me olhar no espelho sem raiva de ter nascido mulher, precisei redefinir o que significa ser mulher.
Nesse processo de autodescoberta, entrei em contato com minha sexualidade. Resgatei memórias da infância que já apontavam para um poder feminino inato, livre e sensual. Cheguei a um relacionamento liberal com meu marido, onde exploramos o prazer sem tabus. Hoje, ensino outras mulheres sobre autoconhecimento, paz com a sexualidade e o valor de ser dona de si. Isso, em nossa era, é rotulado como bruxaria. Historicamente, mulheres que exibiam liberdade sexual eram acusadas de feitiçaria, vistas como ameaças ao controle patriarcal. Por exemplo, nos julgamentos de bruxas da era moderna inicial, mulheres sexualmente ativas eram consideradas não confiáveis e frequentemente executadas, ecoando uma misoginia que ligava independência feminina à maldade. O tratado “Malleus Maleficarum” (1486), de Heinrich Kramer e Jacob Sprenger, retratava mulheres como fracas e propensas a tentações diabólicas, justificando sua perseguição por expressarem desejo ou autonomia.
A associação entre bruxas e mulheres sexualmente livres não é nova. No livro “Witches, Sluts, Feminists: Conjuring the Sex Positive”, Kristen J. Sollee explora como as caças às bruxas demonizavam a sexualidade feminina, traçando uma linhagem de “bruxa feminista” que celebra a liberação sexual. Sollee argumenta que termos como “slut” (vadia) e “witch” (bruxa) surgem da mesma mentalidade misógina, punindo mulheres que rejeitam normas patriarcais. Essa visão ressoa com as caças às bruxas de Salém, onde garotas sexuais eram rotuladas como bruxas, refletindo um medo societal da liberação feminina. Hoje, ao me assumir como “bruxa”, abraço essa herança: mulheres insubordinadas, conhecedoras do corpo, da natureza e do prazer, que recusam a normatividade.
Sei que esse texto vai chocar muitos. Vão arregalar os olhos ao me chamar de “bruxa”, como já fazem com minhas fotos e vídeos sensuais. Afinal, desde a Idade Média, é assim que chamam as que não seguem padrões patriarcais – livres, misteriosas, donas de si. Mulheres que conhecem os segredos da vida, da morte e do desejo são vistas como perigosas, mas é exatamente aí que reside nosso poder.
PS: Pela lei da magia, tudo o que você faz ao outro volta para você. Fica a dica! Happy Halloween!
Referências Bibliográficas
- Sollee, Kristen J. (2017). Witches, Sluts, Feminists: Conjuring the Sex Positive. Threel Media.
- Kramer, Heinrich; Sprenger, Jacob. (1486). Malleus Maleficarum. [Referenciado em artigos sobre caças às bruxas].
- Artigo: “Witch hunts were created by a society that feared female liberation”. Los Angeles Times High School Insider, 27 de janeiro de 2023.





